O Algarve de ARTUR PASTOR

O Algarve de ARTUR PASTOR foi um grande projecto fotográfico dos Encontros de Fotografia de Lagoa: trazer ao Algarve, ao Convento de S. José, em Lagoa, uma extensa exposição retrospectiva do trabalho do fotógrafo português Artur Pastor. Este projecto foi a principal iniciativa levada a cabo pelos ENFOLA*2015.


O ALGARVE DE ARTUR PASTOR

Alentejano de nascimento, Artur Pastor foi algarvio de coração. Fascinou-se com a luz, a cor, a geometria, o recorte, o contraste, a nitidez singular. Talvez por isso fotografou intensamente o Algarve, desde o início da década de 1940 até ao final da de 1990. Foram quase 50 anos, o que desde logo tornou ímpar a sua actividade fotográfica. As paisagens, as povoações, a arquitectura, as pessoas simples e seus afazeres quotidianos, tudo foi registado com grande rigor técnico e cuidado sentido estético. O multifacetado legado que Artur Pastor deixou é, sem dúvida, incontornável para a apresentação e compreensão da identidade algarvia, através da imagem fotográfica. Assim sendo, e alheia a todas as dificuldades, esta exposição não podia deixar de ser uma imensa prioridade na programação dos Encontros de Fotografia de Lagoa.

Regente agrícola por formação, funcionário público no Ministério da Agricultura por profissão, Artur Pastor foi um fotógrafo independente que construiu o seu percurso de acordo com lógicas, vontades, desejos e sonhos muito próprios. As suas origens rurais, a sua formação académica, a sua profissão ligada à terra proporcionaram-lhe, com naturalidade, o contacto muito regular com os portugueses simples e comuns. Por isso fotografou com espontaneidade e proximidade o campo e as suas gentes, do Algarve a Trás-os-Montes. Também a vida em torno do mar e as fainas piscatórias sempre atraíram a atenção de Pastor. O mundo da sardinha e do atum, no Algarve, mas também os dia-a-dia marítimos de Sesimbra ou da Nazaré, por exemplo, ficaram exaustivamente registados e contribuíram sobremaneira para afirmar e distinguir o nome do fotógrafo.

Nuno de Santos Loureiro
Docente e investigador na Universidade do Algarve


EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA

O Algarve de ARTUR PASTOR apresenta-se ao público como uma viagem pela região, de Odeceixe a Vila Real de Santo António. São 61 imagens escolhidas entre muitas, mas não entre todo o enorme legado do fotógrafo. Centrada em dois eixos, os das décadas de 1940 e 1960, a exposição mostra de tudo um pouco. Por revelar ficaram algumas imagens menos conhecidas, puras, realistas, de quem fez muitas fotografias ‘a sujar, despercebidamente, as lentes’.

BILHETES-POSTAIS ILUSTRADOS

Na década de 1940, quando residia em Évora, Artur Pastor utilizou fotografias suas para a edição de várias séries de bilhetes-postais ilustrados. Alguns eram para venda corrente e outros de Boas Festas. Essas edições de autor foram caindo no esquecimento e é hoje difícil saber quantos bilhetes-postais foram produzidos, e em que quantidades. Os ENFOLA*2015, com a colaboração de coleccionadores e da família, contribuem para avivar a memória e apresentam 37 bilhetes-postais ilustrados diferentes, todos eles com imagens do Algarve.

COSTA VICENTINA

Na década de 1990 Artur Pastor voltou à Costa Vicentina para a fotografar detalhadamente. Começou mesmo a preparar uma exposição temática, que nunca chegou a ser concluída e apresentada. Os ENFOLA*2015, com a colaboração da família, exibem agora 12 das cópias de autor inéditas, integrando-as na fase final de O Algarve de ARTUR PASTOR.

Artur relatou-me que em 1943 foi para Tavira cumprir o seu serviço militar e que ficou apaixonado pelo Algarve. Oriundo do Alentejo interior ficou deslumbrado com o mar imenso que banha o Algarve e o torna único.
Rapidamente estabeleceu contacto com pessoas, também elas amantes da fotografia, e que o fizeram embarcar numa aventura que registou com mestria, a pesca do atum. Fez-se ao largo e fotografou a “tourada do mar”, como era conhecida.
Ainda nos anos quarenta depois de fotografar intensamente o Algarve realizou a sua primeira exposição, com cerca 300 fotografias, e que teve lugar no Círculo Cultural do Algarve, em Faro, denominada “Motivos do Sul”.
Em 1960 começámos a passar as “férias grandes” em Albufeira. Não havia um único dia das suas férias em que não fotografasse. Também vínhamos para o Algarve em diferentes épocas do ano, essencialmente no Carnaval. Eram sempre incursões fotográficas. As amendoeiras em flor eram de visita obrigatória.
Não havia praia, região, cidade, campo e as suas gentes, que escapassem à sua objetiva.
Levantava-se muitas vezes antes do nascer do sol para o captar. Outras vezes era o pôr do sol ou o nascer da lua que havia que registar. E escolhia sempre a melhor luz para fotografar. Se fosse preciso regressava ao mesmo lugar depois de perceber qual a melhor hora do dia para fotografar.
Eu acompanhava-o sempre nas suas saídas fotográficas. Por vezes ficava à espera que regressasse das suas caminhadas destemidas pelos lugares mais perigosos, como fossem falésias de difícil acesso, com o coração nas mãos. Nada era obstáculo para os seus objetivos fotográficos. Quando me mostrava as fotografias dizia sempre “Rosalina vê as fotografias que fizemos”.
Em 1965 publicou o álbum fotográfico “Algarve”. Fez uma pesquisa intensa da região e deixou um testemunho escrito em que relata a história e os costumes de um povo que respeitava profundamente. Quanto aos registos fotográficos, estes mostram um Algarve bem diferente, rural e piscatório, que se transformou profundamente. Infelizmente a edição foi, na sua totalidade, para o Brasil e os poucos exemplares que ficaram em Portugal rapidamente desapareceram.
Depois de ambos nos reformarmos as estadias no Algarve prolongavam-se pelo ano dentro, e foi nessa altura que comprámos uma casa em Albufeira. Era mais que uma segunda habitação, era um sonho realizado de gozar os últimos anos de vida numa terra que era da sua eleição. Aqui criámos novas raízes e amizades de longa data.
E para fechar o seu ciclo expositivo é também no Algarve, na Galeria de Arte Pintor Samora Barros, em Albufeira, que realiza, em 1998, a sua última exposição.
Fui abençoada por ter casado com um grande artista de rara sensibilidade. O seu legado é uma herança que queremos partilhar com todos.

Rosalina Pastor
Albufeira, 8 de agosto de 2015


ALGARVE PHOTOGRAPHS FAIR 2015


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